ESTA VIDA
Escolhi este poema de Guilherme de Almeida pelo lirismo, sem cabotismo ou filosofia,mas de um realismo romantico, todo cerebral. ESTA VIDA Um sábio me dizia: "Esta existência não vale a angustia de viver. A ciência, se fossemos eternos, num transporte de desespero, inventaria a morte! Uma célula orgânica aparece no infinito do tempo: e vibra e cresce, e se desdobra, e estala num segundo... Homem, eis o que somos neste mundo!" Falou-me assim o sábio e eu comecei a ver, dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Um monge me dizia:" O´mocidade, és relâmpago ao pé da eternidade! Pensa: o tempo anda sempre e não repousa... Esta vida não vale grande cousa: -uma mulher que chora, um berço a um canto, o riso 'as vezes, quase sempre o pranto... Depois, o mundo, a luta que intimida... Quatro círios acesos- eis a vida!" Isso me disse o monge e eu continuei a ver, dentro da própria morte o encanto de morrer.
Um pobre me dizia:"Para o pobre, a vida é o pão e o andrajo vil que o cobre. Deus?... Eu não creio nessa fantasia! Deus me dá fome e sede cada dia, mas nunca me deu pão nem me deu agua... Nunca! Deu-me a vergonha, a infamia, a magua de andar, de porta em porta, esfarrapado... Deu-me esta vida: um pão envenenado!" Disse-me isto o mendigo e eu continuei a ver, dentro da propria morte, o encanto de morrer.
Uma mulher me disse: "Vem comigo! Fecha os olhos e sonha, meu amigo! Sonha um lar, uma doce companheira que queiras muito e que também te queira... Um Telhado... Um penacho de fumaça... Cortinas muito brancas na vidraça... Um canario que canta na gaiola... - Que linda a vida lá por dentro róla!" Pela primeira vez, eu comecei a ver, dentro da propria vida, o encanto de viver!
GUILHERME DE ALMEIDA
Escrito por Lia de Araújo Oliveira Marchi às 20h50
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