O Velório de Totonho

Chovia muito em Itatiba naquela noite de verão. No bar de Chico Vale estavam encostados no balcão, três "colegas de copo", bebados que dava dó. Para completar chegou o frequentador mais assiduo: um empresário muito rico que tinha por hábito beber cachaça nos piores botecos da cidade. O Seu Chico, dono do bar, deu a triste notícia ao quarteto: o Totonho da Prefeitura havia falecido. [ É necessário explicar que o "de cujus" era um antigo funcionário da municipalidade , figura muito conhecida pela extravagância de seus habitos: boêmio, mulherengo e pai de filhos espalhados por todos os cantos, além dos seis nascidos no casamento]. Os quatro companheiros de copo, muito consternados, depois de tomarem mais umas pingas em homenagem ao falecido, resolveram dar uma chegada no velório. Antes de lá entrar o quarteto deu uma paradinha no boteco "Ultimo Gole", situado em frente ao velório. Já muito bêbados, atravessaram a rua cambaleantes e apoiados uns aos outros. Encontraram, velando o defunto, apenas a viuva [a legítima, e claro] e dois sonolentos funcionários municipais. Ainda recostados entre si para manterem-se em pé, posicionaram-se ao lado do caixão e choraram... discursaram... relembraram... e repentinamente um deles, mais desequilibrado ainda doque os outros, pendeu para a frente e puxou os demais, que juntamente com ele cairam sobre o caixão derrubando o defunto no chão. Como a morte de Totonho foi inesperada e ele não estava morando com a família, os funcionários do hospital não conseguiram encontrar as roupas necessárias para vestir o defunto, arrumaram uma camisa e um paletó e cobriram o restante com muitas flores. Quando a viuva viu seu marido de bruços no chão e nú da cintura para baixo, ficou fora de si: -"Seu ordinário ! É sem vergonha até depois de morto!" E passou a desferir pontapés no pobre Totonho que durinho, durinho levantava o corpo todo do chão a cada pancada que recebia. Os dois funcionários municipais que estavam dormindo, acordaram sobressaltados e sairam em disparada, restando sómente os bebados e desastrados "colegas" para colocar Totonho de volta no caixão. Depois de muitos escorregões, blasfêmias e atrapalhadas o defunto voltou novamente ao seu devido lugar. Precisavam então, arrumar as flores para cobrir o que estava despido. O problema é que haviam pisoteado em quaze todas elas. A solução foi aproveitar as poucas flores restantes para fazer um "montinho" cobrindo sómente o necessário.
[Acreditem, esse fato é verídico. Coisas que só acontecem na minha querida Itatiba]
Escrito por Lia de Araújo Oliveira Marchi às 23h11
[]
[envie esta mensagem]
|