Surpresas . . .

 

Hoje ao arrumar minha bolsa, deparei com o cartãozinho da clínica médica e ví que já está no tempo de meu retorno.

Poderia encontrar tanta coisa...  o telefone de alguém querido que eu displicentemente joguei na bolsa,

ou uma caneta que eu julgava perdida, ou até algumas moedas....Mas não.

Encontrei o cartão do meu médico para me lembrar do que eu mais quero esquecer.

 

COMO EU NÃO GOSTO DE SURPRESAS!!!  

As desagradáveis acabam com o nosso humor e as agradáveis poderiam ser ainda melhores se não fossem...

 

!!SURPRESA!!

 

Para que um fato se torne mais valioso, mais desfrutável,  ele não pode ser destituido de espera, de expectativa.

A Surpresa é conveniente para quem a faz e nem sempre para quem a recebe.  O seu preparo envolve uma tensão, uma ansiedade que aumenta e se torna muito mais forte , mais palpitante no momentio em que ela se realiza; enquanto que quem a recebe, o prazer, a alegria são efêmeros, ficam restritos aquele pequeno espaço de tempo;

mesmo que ela seja uma surpresa muito apreciada.

 

É tão bom usufruir intensamente os bons momento de nossas vidas...

Saint-Exupéry em " O Pequeno Príncipe" traduz essa terna emoção no diálogo da raposa com o principezinho: ..."disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu

começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração...É preciso ritos. ..."

 

Tudo, tudo mesmo tem valor. A menor atitude , o acontecimento aparentemente insignificante, tem valor.

Essa valoração depende de nosso arbítrio. As surpresas roubam, um pouco desse valor.

Essa reflexão é absolutamente despretenciosa, afinal é uma teoria amparada  por uma "raposa".
De qualquer maneira estou aberta na expectativa de receber sempre BOAS SURPRESAS.



 Escrito por Lia de Araújo Oliveira Marchi às 16h37
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MEU PAI


 

          Somos todos constituidos de destroços do passado. Do nosso e do passado daqueles que nos antecederam. Tudo isso forma o nosso ser.
          O homem não é dono do ser, nem a título originário, nem a título derivado: o homem é o pastor do ser. A vida impõe-lhe que se cuide para devolver à comunidade um ser cada dia mais aprimorado.
          Nessa missão o homem é um ente sempre
 " incluso, tambaleante entre la oscuridad de los abismos"...Como adverte Pablo Neruda.
          Angelo de Oliveira, ou Angelo Gabriel DÓliveira, ou simplesmente Angito Farmaceutico, em seu natural desassossego parecia saber que ficaria por aqui apenas cinquenta e quatro anos e certamente julgava:..."sou a Hora. E a Hora é de assombro, e toda ela escombros dela"...
         Viveu intensamente esses efêmeros anos... Essas efêmeras horas...
         Lembro-me que certo dia ele pediu que eu fosse até um bar de um amigo, localizado em frente a nossa farmácia e comprasse um ovo cozido com a casca pintada de cor-de-rosa, desses que ficam expostos em bandeijas sobre o balcão. Fez suas alquimias até acertar uma cor idêntica ao ovo cozido e depois pintou alguns ovos
crus.  Colocou-os no bolso de seu jaleco e dirigiu-se ao bar. Disfarçadamente trocou os ovos cozidos pelos crus e ficou conversando esperando os passageiros do próximo onibus, que apressadamente, aproveitavam os poucos minutos de parada,  para servirem-se dos quitutes que estavam ofertados sobre o balcão. 
        Não preciso dizer o que aconteceu... Mas era só questão de poucos dias e o amigo do bar já lhe preparava o troco.
        Meu pai era assim: uma pessoa especial, vibrante... A par de uma nobre e respeitável figura humana existia o moleque com a visão dos estudiosos, a necessária ponderação dos sábios, o idealísmo dos jovens e a doçura das crianças...
       E como ele amava as crianças...
       Meu respeitável e admirável pai...
       Meu saudoso e amado moleque...
       A pouco mencionei a Hora, encerro invocando o Momento: lá como cá, a presença de Fernando Pessoa  [poeta de sua preferência]:
       "Sob os ramos que falam com o vento,
       Inerte, abdico do pensamento.
      Tenho esta Hora e o ócio que está nela
      Levem o mundo: deixem-se o Momento". 
         



 Escrito por Lia de Araújo Oliveira Marchi às 13h07
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