Assombração
 Há uns anos atrás, Itatiba foi despertada de sua pacatez por um acontecimento inusitado. Seu Laureano, funcionário público aposentado, já arqueado pelo peso de seus oitenta e seis anos, com visíveis sulcos em seu rosto esculpidos pelas muitas restrições impostas pela vida de sacrifícios e provações, com a pele muito branca, lívida, tal qual os seus poucos e mal aparados cabelos, era viúvo e morava com sua filha Eugênia, em uma casa de dois pavimentos. Todo dia, ao entardecer, Seu Laureano vestido com seu pijama branco de listas azuis claras sentava-se em frente a uma janela da sala de estar para receber os últimos raios de sol que já se despedia atrás da cinzenta montanha. Neste dia em questão, Eugênia teve que sair. Mas antes fechou as portas e janelas deixando de ascender as luzes porque ainda havia alguma claridade. Pouco depois caiu a noite e a casa ficou totalmente às escuras. De repente o Seu Laureano acordou sobressaltado: Havia alguém arrombando a porta de entrada. Desesperado, sem saber o que fazer escondeu-se embaixo da escada que levava aos quartos. Um homem entrou sorrateiramente com um farolete em uma das mãos e um revolver em outra. Deu uma rápida olhadela nos cômodos térreos e começou a subir vagarosa e cuidadosamente a escada. O pobre velho estava apavorado... Faltava-lhe o ar... Faltava-lhe o fôlego... E seu coração parecia um tambor prestes a lhe saltar pela boca... Tum...Tum...Tum...Tum...Tum...Tum... E pensava: “O ladrão com certeza vai ouvir as batidas de meu coração” Tum...Tum...Tum... Num lampejo de coragem saiu do esconderijo e com uma voz entrecortada, trêmula, sussurrada, quase um gemido disse: -“Booa nooite seu laadrão!” O intruso levou um tremendo susto e quando viu aquela figura extremamente pálida, com uma aparência macabra, soltou o revolver e o farolete e em duas passadas alcançou a porta... E desapareceu no mundo
Escrito por Lia de Araújo Oliveira Marchi às 22h56
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